Quando li o artigo do Marc Cinanni, House of Beautiful Business1, sobre “leading from the dark” do Steven D’Souza, dentro da minha cabeça comecei a fazer muitas ligações. Atualmente na Immersis, temos o privilégio de acompanhar algumas equipas que passam por momentos de transformação e, embora muitas vezes o briefing nos chegue com outras mensagens, a incerteza parece estar na base de uma pirâmide de competências que são requisitos das organizações, mas que facilmente são abaladas em momentos de desenvolvimento.
Steven D’Souza fala-nos de uma liderança a partir da escuridão, a verdade é que vivemos num mundo que está fora do nosso controlo. Na realidade, nunca esteve, mas anos de uma aparente calma geopolítica faziam-nos acreditar que sim; e levaram-nos a tomar decisões com base em premissas que considerávamos verdadeiras. Uma liderança que consegue justificar as suas tomadas de decisão é uma liderança de maior afirmação, interior e exterior, o que faz parecer que domina e controla o ambiente em redor.
Recentemente, vimos e sentimos “cá dentro” a instabilidade das alterações climáticas e, “lá fora”, o Relatório do Índice de Segurança para 20262 elege uma das maiores potências mundiais e o seu presidente como um dos fatores de risco que o mundo enfrenta. Quer queiramos quer não, estas ondas de incerteza acabam por se repercutir além fronteiras e afetar os países e as suas organizações de formas diversas. A incerteza e o desconhecido trazem ansiedade e, neste aspeto, acreditem, tenho longa experiência. Tal como eu olho para a minha chefia em busca de clarividência e suporte, outros farão o mesmo relativamente aos seus líderes. E os líderes? Que estratégia têm para desbravar este mar de ondas de desconforto numa noite sem luar?
Fingir confiança vs ser humano
Segundo D’Souza, liderar a partir da escuridão significa que não é possível criar uma estratégia com base no desconhecido, lidera-se a partir de uma zona sem garantias e sem previsibilidade. Neste ponto crucial, há dois tipos de comportamento: o líder pode fingir ter confiança, como uma atuação de um papel, ou ser Humano. Se as circunstâncias não permitem ter certezas, dar passos em frente com a consciência de que a estratégia pode ter de mudar é ser honesto consigo e com os outros. Esta humanização ou abertura à experiência é algo que gostamos de trabalhar na Immersis.
Se uma liderança de uma empresa farmacêutica nunca dirigiu um restaurante, irá, certamente, de uma forma humana e honesta, aprender neste seu novo papel. Isto não quer dizer que o seu background não possa ser-lhe útil na função, mas no Restaurant Takeover, o contexto é diferente, desconhecido, é imediato e os papéis são muito visíveis; não há um gabinete e uma pausa para reflexão.
A pergunta 0 a 10 quanto querem arriscar?
Falamos muitas vezes no Mini ARG como a nossa atividade ex-libris. Ela está nas pedras basilares do surgimento da Immersis e é sobretudo nesta experiência que brincamos com a incerteza, com a inevitabilidade, que testamos os limites. Veio-me à cabeça várias vezes enquanto lia o artigo. O enredo é escrito à medida, mas uma das questões primordiais no briefing é: de 0 a 10 quanto querem arriscar? E a resposta a esta pergunta nem sempre é imediata, requer reflexão. Vou ousar dizer que é quase a personificação deste artigo de Steven D’Souza. Estamos a questionar alguém quanto quer arriscar numa atividade que é sugerida porque estamos a trabalhar temas que vão mexer com mentalidades e perfis. Estamos a perguntar ao seu líder quanto quer arriscar confiando em nós; 99% das vezes, sem saber o que vai acontecer à sua equipa.
De uma forma menos interventiva, mas igualmente reveladora, O Mundo é Jazz transforma a imprevisibilidade em harmonia, em criatividade e em desempenho. Começa com algo que parece um concerto para logo de seguida se transformar numa sessão de inspiração e aprendizagem em que o desconhecido e a incerteza podem ser a pauta dos músicos.
Em resumo, sejam Humanos, abracem a imprevisibilidade e a incerteza e sejam tolerantes no processo de aprendizagem que estamos a viver. Se tudo isto parecer esmagador, temos estratégias e soluções para as vossas lideranças.
Foto de Oliver Guhr na Unsplash.