A reunião estratégica termina. Perguntas se todos estão alinhados. Há acenos de cabeça, um silêncio polido, talvez um “sim, claro” murmurado. Sentes um alívio momentâneo. Enganas-te. O que acabaste de testemunhar não foi alinhamento. Foi o som do medo, da indiferença ou da fadiga. E esse som é o prelúdio do fracasso.
A reunião acabou. Todos concordaram.
Esta cena é-te familiar. A equipa sentada à volta de uma mesa, a discutir o plano para o próximo trimestre. O líder apresenta a visão, os objetivos, as métricas. No final, procura o fecho, a validação. “Estamos todos juntos nisto?”
Silêncio. Ninguém contesta os pressupostos. Ninguém questiona a alocação de recursos. Ninguém aponta o risco óbvio que o teu principal concorrente já está a explorar. A reunião termina com uma ilusão de unidade.
Duas semanas depois, o projeto começa a descarrilar. Os prazos falham. As equipas que deveriam colaborar trocam emails passivo-agressivos. As pessoas que acenaram com a cabeça na reunião são as primeiras a dizer, à porta da máquina de café, “claro que não vai funcionar”.
O problema foi aquele silêncio na sala, muito mais do que a execução. Aquele consenso artificial que confundiste com compromisso. A verdade é que a tua equipa ficou apenas calada e isso… não é alinhamento.
Não confundas conformidade com compromisso
As equipas de alta performance não são pacíficas. São ruidosas. Discutem. Debatem. Desafiam-se. O seu alinhamento é o ponto de chegada. Um que só é alcançado depois de esgotarem as discordâncias de forma honesta e frontal – e esse é o papel do líderes – quebrar impasses se a equipa não os conseguir fazer por eles próprios.
Pensa na Netflix. Durante anos, a sua cultura foi resumida num documento interno que se tornou lendário no mundo da gestão. Um dos seus pilares é o princípio “discorda e compromete-te” (disagree and commit). A expectativa não é que todos concordem sempre. A expectativa é que, se discordas, tens a obrigação de o dizer, de apresentar os teus argumentos de forma clara e racional.
Eles construíram um império global pedindo às pessoas para contribuir num ambiente onde as melhores ideias vencem, independentemente da hierarquia de quem as defende. O debate é a ferramenta. A decisão é o resultado. E uma vez tomada a decisão, todos se comprometem a executá-la, mesmo aqueles que discordaram.
Isso é alinhamento. É um grupo de pessoas que, depois de explorar as diferentes maneiras de pensar, se compromete com um só caminho.
O teu problema é mais medo, comodismo e desapego… do que desalinhamento
Quando uma equipa opta pelo silêncio em vez do debate, o problema raramente é falta de inteligência. É falta de segurança psicológica. As pessoas não discordam porque têm medo.
E instala-se o “desapego”… a minha vida é outra coisa, vou fazer os mínimos necessários.
Esta cultura é mais cara do que qualquer erro que um debate aberto pudesse gerar.
Custa-te inovação, porque as ideias que desafiam o status quo morrem antes de serem ditas. Custa-te agilidade, porque as más decisões seguem em frente sem escrutínio. E custa-te talento, porque os teus melhores profissionais — aqueles que querem ser desafiados e fazer a diferença — acabam por ir para um sítio onde a sua voz conta.
Tens de criar um ringue onde a luta é treino e todos se sentem protegidos.
A tua função enquanto líder de pessoas é criar as condições para que ele seja produtivo. Não precisas de um palco para aplaudir consensos fáceis. Isto não se aprende com teoria nem se resolve com um workshop sobre comunicação não-violenta. Aprende-se na prática, em ambientes desenhados para forçar a confrontação de ideias.
É por isso que em formatos como o nosso OpenLab, removemos as redes de segurança. Colocamos os teus líderes numa sala com um problema real e sem solução fácil — um dilema entre a rentabilidade a curto prazo e a sustentabilidade a longo prazo, por exemplo. Não lhes damos um guião. Damos-lhes dados contraditórios, papéis com interesses opostos e um prazo para construir um plano de ação coeso.
O que se segue é tenso. Há argumentos, frustração, becos sem saída. Mas é nesse caos controlado que a verdadeira dinâmica da equipa se revela. É aí que aprendem a ouvir, a negociar, a ceder em pontos menores para garantir o essencial. E, no fim, a construir uma decisão que, por ter sido testada pelo fogo da discordância, pertence genuinamente a todos.
Então fica a pergunta: quando foi a última vez que tiveram coragem para discordar a sério?
Se esta tensão te soa familiar, se a tua equipa sofre de um excesso de concordância e uma falta de compromisso, talvez seja altura de termos uma conversa.
Conte-nos o que está a acontecer com a sua equipa. Prometemos que haverá progresso.
E nada será como dantes.