Como as empresas querem transformar as suas pessoas

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A rotina que marca muitos dos desafios profissionais torna a maioria dos dias indiferenciados. São raros os momentos extraordinários e impactantes, assim como o reconhecimento do poder transformativo dos mesmos. No entanto, determinadas experiências vivenciadas, ou histórias de experiências de alguém próximo, moldam a perspetiva de cada um de diversas formas, dependendo das emoções que causam e das aprendizagens que motivam.

Sejam individuais ou coletivas, aterrorizadoras ou apaixonantes, as experiências conferem uma propriedade única às pessoas e são, também, aquilo que se procura como fuga à normalidade e estagnação. Como seres humanos, os cérebros estão preparados para reconhecer e valorizar o que faz cada um sentir mais vivos.

Imagine que nos últimos dez anos tinha vivido em Nova Iorque e levava uma vida animada e dinâmica como promotor de discotecas. Posto de forma simples, ganhava dinheiro a organizar festas. Tinha-se mudado para Nova Iorque para se afastar da sua família cristã conservadora e poder ser independente, o que o/a tornou egoísta e arrogante. Mas, aos 28 anos, teve uma crise de consciência ao aperceber-se que estava quase arruinado/a espiritual, moral e emocionalmente. Então, decidiu dar uma volta de 180º à sua vida e mudou-se para África para fazer um ano de voluntariado. Lá, foi exposto pela primeira vez a pobreza extrema. Um ano transformou-se em dois e, enquanto lá estava, viu repetidamente pessoas a beberem água de poços, rios ou pântanos. Ao observar isto tornou-se claro que era sua obrigação fazer alguma coisa…

Este momento, esta tomada de decisão que vinca uma transformação, causa um efeito cascata com diversas aprendizagens e mudanças de perspetiva, que são transversais às vidas de quem nos rodeia.

Esta riqueza de impacto chama a atenção ao mundo corporativo, cada vez mais interessado em investir no seu capital humano, de modo a proporcionar uma aprendizagem contínua e crescimento gradual, para que as competências desenvolvidas se transfiram para o trabalho.

Esse trabalho, imerso num contexto de atual incerteza, implica cada vez maior preparação para lidar com a mudança constante, de forma ágil, eficaz e eficiente. Não sendo super-humanos, esta preparação requer um upgrade em cada um, um processo de desaprender para aprender novamente.

Junto com o learn by doing, by being with, by being coached, by being mentored, as empresas têm de assegurar que impactam o sistema de aprendizagem com momentos de tal forma fortes que garantam a retenção do conhecimento e respetiva transferência para o dia-a-dia do colaborador, resultando numa aposta cada vez mais evidente na ativação de equipas em períodos mais curtos, de elevado impacto, mas sobretudo com forte propósito pedagógico.

Não é de estranhar, portanto, que a participação em experiências verdadeiramente imersivas e transformacionais seja, neste momento, muito requisitada, experiências estas que integram os dois lados da vertente experiencial:
. Experiências epistemicamente transformativas: aquelas em que aquilo que se ensina não poderá ser aprendido sem a participação ativa na experiência. A própria experiência ensina o que é aquele tipo de vivência e dá a capacidade de imaginar, reconhecer e codificar cognitivamente o que significa vivê-la.

. Experiências pessoalmente transformativas: aquelas que marcam e modificam de uma forma profunda e fundamentalmente pessoal. Este resultado pode acontecer através da mudança de preferências pessoais primárias, da mudança de perceções, de desejos e motivações e preferências, ou da mudança de definição de perspetivas intrínsecas.

A busca pelas experiências transformativas, os eventos ou atividades de tal forma marcantes que aquilo que se aprende não poderia ser aprendido nem representado cognitivamente sem o viver, garante a modificação da nossa perspetiva sobre algo interno nas pessoas. Proporcioná-las assegura que os participantes chegam aos resultados pretendidos para, posteriormente, refletirem e utilizarem aquela experiência como espelho do dia-a-dia de trabalho, aplicando as mesmas estratégias.

Regressemos então um pouco atrás, à história de Scott Harrison, mas que poderia ser a sua. Após a constatação de que tantas pessoas tinham acesso limitado e pouco higiénico a água, Scott investigou sobre o tema e descobriu que, na realidade, 800 milhões de pessoas vivem sem acesso a água potável em todo o Mundo. Posto isto, Scott decidiu voltar para Nova Iorque e pôr em marcha um projeto que conseguisse modificar a situação trágica que tinha observado. Scott decidiu desenvolver uma instituição de caridade, a “Charity: Water”. Reuniu uma pequena equipa e, juntos, começaram a traçar caminho para cumprirem uma grande missão, a de levar água potável a todas as pessoas que não tinham acesso a ela. Para além disso, a “Charity: Water” defendia uma visão inovadora para reinventar o modelo tradicional das organizações não governamentais, aplicando um modelo de reversão de 100% e de transparência absoluta. Passados 12 anos, e com a ajuda de um milhão de colaboradores, a “Charity: Water” já angariou 360 milhões de dólares e financiou mais de 35 mil projetos de aumento de acesso a água potável em 27 países que, uma vez completados, fornecerão água potável a mais de nove milhões de pessoas.

A história de Scott Harrison e da “Charity: Water” ilustra a marca que determinadas experiências deixam e a capacidade que tem de modificar de forma profunda o rumo pessoal e profissional de cada um. As experiências mudam as pessoas, que depois mudam as empresas e transformam o ecossistema global. Logo, impõe-se a questão: o que está a fazer para ajudar a acelerar este ciclo virtuoso?”

 

Luís Rosário
Partner da Immersis